Más tarde a Oliveira le preocupó que ella se creyera colmada, que los juegos buscaran ascender a sacrificio. Temía sobre todo la forma más sutil de la gratitud que se vuelve cariño canino, no quería que la libertad, única ropa que le caía bien a la Maga, se pierdera en una feminidad diligente. Se tranquilizó porque la vuelta de la Maga al plano del café negro y la visita al bidé se vio señalada por una recaída en la peor de las confusiones. Maltratada de absoluto durante esa noche, abierta a una porosidad de espacio que late y se expande, sus primeras palavras de este lado tenían que azotarla como látigos, y su vuelta al borde de la cama, imagen de una consternación progresiva que busca neutralizarse con sonrisas y una vaga esperanza, dejó particularmente satisfecho a Oliveira. Puesto que no la amaba, puesto que el deseo cesaría (porque no la amaba, y el deseo cesaría), evitar como la peste toda sacralización de los juegos.
Rayela, de Julio Cortázar (Ediciones Alfa, p. 37)
terça-feira, 17 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
domingo, 8 de julho de 2012
Um Trem para as Estrelas
São 7 horas da manhã
Vejo o Cristo da janela
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles tem
Neste filme como extras
Todos querem se dar bem
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles tem
Neste filme como extras
Todos querem se dar bem
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Estranho o teu Cristo, Rio
Que olha tão longe, além
Com os braços sempre abertos
Mas sem proteger ninguém
Que olha tão longe, além
Com os braços sempre abertos
Mas sem proteger ninguém
Eu vou forrar as paredes
Do meu quarto de miséria
Com manchetes de jornal
Pra ver que não é nada sério
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
De Cazuza e Gilberto Gil
sábado, 26 de maio de 2012
Esquinas Embriagadas de Cultura
Foto: Divulgação Cia um Pé de Dois, no Bairro Bom Fim
Muito legal o evento que rolou ontem na Cidade Baixa, bairro boêmio de Porto Alegre. Vários artistas de rua se apresentaram nas esquinas, como Mauro Bruzza (o Homem-Banda) e Mariana Ferreira, casados e fundadores da Cia Um Pé de Dois, além de integrantes do Circo Híbrido. Eles foram bem recebidos. Quem estava passando pelas apresentações parava pra assistir. Quem estava nos bares bebendo aplaudia com entusiasmo. Mariana me surpreendeu dizendo que, em Porto Alegre, o chapéu (dinheiro arrecadado por cada apresentação, conforme quem estiver assistindo queira doar) é muito bom e que não se pode falar que falta espaço para os artistas de rua, porque esse é justamente seu desafio. De qualquer forma, ações desse tipo não são muito comuns em Porto Alegre e o objetivo de levar cultura e tirar o marasmo que chegou por lá desde que vários bares começaram a ser fechados foi cumprido. A ação foi promovida pelo Cidade Baixa em Alta, formado por comerciantes do bairro.
Eu cada vez mais estou apaixonada pelo teatro de rua. Porto Alegre tem tanta capacidade e potencial pra que esse gênero se desenvolva cada vez mais. Quanto mais ações desse tipo existirem, mais vai se tornar natural e incentivador para que outros artistas se juntem. E a Cidade Baixa, junto com o Bom Fim, é ideal pra promoção da cultura em Porto Alegre, mesmo que tudo tenha que fechar à meia-noite. O que não se pode fazer é se entregar pros homens. De jeito nenhum.
domingo, 6 de maio de 2012
Wilder e Villaça
Depois de um ano longe dos bloquinhos de notas, voltei a fazer reportagens no começo de abril. A pauta não poderia ser melhor: Billy Wilder. No fim de março, completaram-se 10 anos desde que ele morreu. Eu já tinha visto dez filmes do Wilder e já sabia o que eu queria destacar, mas claro que eu precisava de uma fonte. Tentei marcar com o Hélio Nascimento, crítico de cultura do JC, mas as agendas não bateram. Por sorte, o Pablo Villaça estava vindo pra Porto Alegre na semana seguinte com o curso de crítica de cinema que ela leva a várias cidades do país. O timing foi perfeito, marquei com ele por email e nos encontramos na Casa de Cultura Mário Quintana.
Acho que ele não gosta muito de dar entrevista e chegou achando que a minha reportagem era pra um veículo impresso, mas foi muito atencioso e a entrevista foi super produtiva. Eu, que achava que o mundo era "Deus no céu e Wilder na terra", fiquei surpresa quando ele disse que na verdade o cineasta dedurava meio mundo na época do McCarthismo. Ninguém é perfeito né (desculpem por essa). Agora fiquei pensando que eu não coloquei isso na reportagem, mas acho que deveria ter colocado.
Acho que ele não gosta muito de dar entrevista e chegou achando que a minha reportagem era pra um veículo impresso, mas foi muito atencioso e a entrevista foi super produtiva. Eu, que achava que o mundo era "Deus no céu e Wilder na terra", fiquei surpresa quando ele disse que na verdade o cineasta dedurava meio mundo na época do McCarthismo. Ninguém é perfeito né (desculpem por essa). Agora fiquei pensando que eu não coloquei isso na reportagem, mas acho que deveria ter colocado.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Jornalismo Literário
Tenho que fazer uma confissão. Durante os quarto anos em que cursei Publicidade, nunca li um livro sequer sobre o assunto. Nada me atraía, nem sobre design, marketing, criação, planejamento, nada. Por outro lado, os livros de jornalismo sempre me fascinaram. Devo ter lido uns 15 nos últimos dois anos e não era raro eu levar um deles pra ficar lendo em plena aula (de Publicidade). Os professores deviam pensar que eu era uma menina confusa. E era mesmo.
Li manuais de redação, teoria e técnica do jornalismo impresso, jornalismo cultural e até jornalismo investigativo. Também li alguma coisa de jornalismo literário, que chamava a atenção desde os 17 anos. De Gay Talese a Joel Silveira, recomendo todos os que li abaixo:
A Sangue Frio, de Truman Capote: Acompanha até o fim a investigação e o julgamento dos dois assassinos dos quarto membros da família Clutter. Capote trabalhou durante anos nesse caso, produzindo uma reconstituição detalhada do crime e apresentando o ponto-de-vista dos amigos das vítimas e também dos assassinos.
O Inverno da Guerra, de Joel Silveira: Relato do período em que Silveira foi enviado como correspondente do Diário dos Associados à II Guerra Mundial. O livro é bastante informativo sobre o que os pracinhas tiveram que enfrentar na Itália e passa a apresentar um tom lírico mais pro final.
Emboscada no Forte Bragg, de Tom Wolfe: Não é o livro mais famoso de Wolfe, mas é bem interessante, apresentando questões cruciais sobre ética. O livro acompanha uma equipe de telejornal e a falta de escrúpulos ao tentar um furo de reportagem. Também é interessante pra quem se interessa por telejornalismo, mostrando um pouco dos bastidores e do modo-de-fazer de um telejornal.
O Reino e o Poder, de Gay Talese: Livro que conta a história do New York Times minuciosamente, desde sua criação. É um puco cansativo, porque Talese acrescenta também as histórias de vida dos personagens (do alto-escalão, em sua maioria), mas vale a pena pela narração da disputa pelo poder no jornal e em suas sucursais.
Rota 66, de Caco Barcellos: Fruto de uma trabalhosa investigação, Rota 66 desmascara os assassinatos cometidos por um setor da polícia de São Paulo e compartilha os métodos utilizados por Caco para chegar ao resultado final. O livro também narra episódios da vida do jornalista na infância e no exercício da profissão.
Li manuais de redação, teoria e técnica do jornalismo impresso, jornalismo cultural e até jornalismo investigativo. Também li alguma coisa de jornalismo literário, que chamava a atenção desde os 17 anos. De Gay Talese a Joel Silveira, recomendo todos os que li abaixo:
A Sangue Frio, de Truman Capote: Acompanha até o fim a investigação e o julgamento dos dois assassinos dos quarto membros da família Clutter. Capote trabalhou durante anos nesse caso, produzindo uma reconstituição detalhada do crime e apresentando o ponto-de-vista dos amigos das vítimas e também dos assassinos.
O Inverno da Guerra, de Joel Silveira: Relato do período em que Silveira foi enviado como correspondente do Diário dos Associados à II Guerra Mundial. O livro é bastante informativo sobre o que os pracinhas tiveram que enfrentar na Itália e passa a apresentar um tom lírico mais pro final.
Emboscada no Forte Bragg, de Tom Wolfe: Não é o livro mais famoso de Wolfe, mas é bem interessante, apresentando questões cruciais sobre ética. O livro acompanha uma equipe de telejornal e a falta de escrúpulos ao tentar um furo de reportagem. Também é interessante pra quem se interessa por telejornalismo, mostrando um pouco dos bastidores e do modo-de-fazer de um telejornal.
O Reino e o Poder, de Gay Talese: Livro que conta a história do New York Times minuciosamente, desde sua criação. É um puco cansativo, porque Talese acrescenta também as histórias de vida dos personagens (do alto-escalão, em sua maioria), mas vale a pena pela narração da disputa pelo poder no jornal e em suas sucursais.
Rota 66, de Caco Barcellos: Fruto de uma trabalhosa investigação, Rota 66 desmascara os assassinatos cometidos por um setor da polícia de São Paulo e compartilha os métodos utilizados por Caco para chegar ao resultado final. O livro também narra episódios da vida do jornalista na infância e no exercício da profissão.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Viagem de Trem em Buenos Aires
Há alguns dias, chegou ao Brasil mais uma notícia sobre um acidente envolvendo um trem na Argentina. Dessa vez, foram 50 mortos e centenas de passageiros feridos. No ano passado, outros incidentes ocorreram sem que fossem tomadas medidas para evitar novos acidentes. Foi preciso uma tragédia maior para que o país começasse a discutir os problemas desse tipo de transporte em Buenos Aires.
Estive na Argentina em julho do ano passado e presenciei de perto a situação precária dos trens da capital federal. Assim como fiz para visitar todos os outros bairros, fui caminhando do Centro até o Retiro, onde deveria pegar o trem rumo à periferia da cidade. Meu objetivo era chegar até a Estação Mitre, onde poderia pegar o turístico Tren de la Costa e visitar as cidades de Tigre e San Isidro, a 30 km de Buenos Aires. Os trens que vi pareciam estar caindo aos pedaços. Sentada em um dos assentos velhos, cheguei a ficar com medo porque o trem balançava perigosamente. Pensei que um deles fosse sair dos trilhos. As estações eram praticamente abandonadas. Uma delas (não lembro o nome) não possuía entrada nem fiscalização, de forma que qualquer pessoa poderia entrar em um dos trens sem apresentar bilhete. O que eu vi foi muito diferente do Trensurb aqui de Porto Alegre, por exemplo. Foi muito diferente também do centro de Buenos Aires. Era muito fácil perceber que aquela era uma região esquecida pelas autoridades, um corpo estranho que não pertencia à "Paris da América Latina".
O Tren de la Costa, por sua vez, com sua estação bem cuidada, com lindas lojinhas vintage e bistrôs que nos faziam voltar no tempo, também tratavam de apagar a triste realidade da periferia. Mas eu não fiquei surpresa quando, no ano passado, vi a notícia sobre o acidente entre um trem e um ônibus em Buenos Aires, assim como não fiquei surpresa com esse acidente horrível que aconteceu há poucas semanas.
O Clarín fez, há dois dias, uma reportagem sobre as condições precárias dos trens em Buenos Aires, e a situação é ainda pior do que eu tinha visto. Parece que eles vão diminuir o número de trens para aliviar o problema. Será que é suficiente? Enquanto isso, toda essa situação deveria servir de aviso ao Brasil, de que casos aparentemente isolados podem revelar problemas até então ignorados.
Estive na Argentina em julho do ano passado e presenciei de perto a situação precária dos trens da capital federal. Assim como fiz para visitar todos os outros bairros, fui caminhando do Centro até o Retiro, onde deveria pegar o trem rumo à periferia da cidade. Meu objetivo era chegar até a Estação Mitre, onde poderia pegar o turístico Tren de la Costa e visitar as cidades de Tigre e San Isidro, a 30 km de Buenos Aires. Os trens que vi pareciam estar caindo aos pedaços. Sentada em um dos assentos velhos, cheguei a ficar com medo porque o trem balançava perigosamente. Pensei que um deles fosse sair dos trilhos. As estações eram praticamente abandonadas. Uma delas (não lembro o nome) não possuía entrada nem fiscalização, de forma que qualquer pessoa poderia entrar em um dos trens sem apresentar bilhete. O que eu vi foi muito diferente do Trensurb aqui de Porto Alegre, por exemplo. Foi muito diferente também do centro de Buenos Aires. Era muito fácil perceber que aquela era uma região esquecida pelas autoridades, um corpo estranho que não pertencia à "Paris da América Latina".
O Tren de la Costa, por sua vez, com sua estação bem cuidada, com lindas lojinhas vintage e bistrôs que nos faziam voltar no tempo, também tratavam de apagar a triste realidade da periferia. Mas eu não fiquei surpresa quando, no ano passado, vi a notícia sobre o acidente entre um trem e um ônibus em Buenos Aires, assim como não fiquei surpresa com esse acidente horrível que aconteceu há poucas semanas.
O Clarín fez, há dois dias, uma reportagem sobre as condições precárias dos trens em Buenos Aires, e a situação é ainda pior do que eu tinha visto. Parece que eles vão diminuir o número de trens para aliviar o problema. Será que é suficiente? Enquanto isso, toda essa situação deveria servir de aviso ao Brasil, de que casos aparentemente isolados podem revelar problemas até então ignorados.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Caderno 2 - Série especial sobre moda
Fiz essa série quando estava começando no Caderno 2. Queria mostrar como a moda e a história se entrelaçam e como a moda é um reflexo da sociedade. Modesta né?
Entrevistei Joana Bosak (com direito a um dos maiores micos que já paguei em entrevistas, porque cheguei super atrasada na casa dela, mas serviu pra me ensinar uma lição). Ela foi com certeza uma ótima contribuição, mas hoje eu teria feito perguntas diferentes, eu acho. Mudaria a parte 3, sobre os anos 70.
Apesar dos erros técnicos e da redundância que eu acabei criando ao repetir no texto o que ela dizia nas sonoras, fiquei satisfeita com a edição de imagens e acho que a tentativa foi válida, vai.
Entrevistei Joana Bosak (com direito a um dos maiores micos que já paguei em entrevistas, porque cheguei super atrasada na casa dela, mas serviu pra me ensinar uma lição). Ela foi com certeza uma ótima contribuição, mas hoje eu teria feito perguntas diferentes, eu acho. Mudaria a parte 3, sobre os anos 70.
Apesar dos erros técnicos e da redundância que eu acabei criando ao repetir no texto o que ela dizia nas sonoras, fiquei satisfeita com a edição de imagens e acho que a tentativa foi válida, vai.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Métodos de avaliação do ENEM são alvo de denúncias de alunos e ex-corretores
Os questionamentos sobre a credibilidade do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, têm virado pauta pelo menos uma vez por ano, desde que o exame se tornou a principal porta de entrada dos brasileiros no Ensino Superior gratuito. Vazamentos de questões ou até mesmo de provas inteiras e erros de impressão são alguns dos principais problemas apresentados. Há indícios, porém, de que o sistema de avaliação das provas também apresenta defeitos, comprometendo, assim, alunos de diversas regiões do país.
A questão 133 da prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias de 2011 exigia que o candidato identificasse a funcionalidade da ferramenta virtual Twitter. Na proposta de redação da mesma edição do exame, os candidatos deveriam dissertar sobre os limites entre o público e o privado na internet. Uma citação da revista Galileu, utilizada para auxiliar os candidatos na compreensão da proposta, dizia que a ONU havia declarado que o acesso à rede era um direito fundamental ao ser humano, tal como a saúde, a moradia e a educação. A realidade brasileira, entretanto, mostra que esse direito está longe de ser respeitado em sua plenitude. Segundo pesquisa realizada pela Fecomércio-RJ e pela Ipsos no último trimestre de 2011, apenas 48% da população do Brasil acessa a internet. Como esperar, portanto, que todos os candidatos tenham condições iguais de ser avaliados com base em seus conhecimentos de um recurso ainda excludente no Brasil?
Esse é apenas um exemplo das muitas incoerências encontradas nas provas do ENEM. Na última semana, denúncias sobre o método utilizado na correção das redações têm sido realizadas por candidatos e ex-corretores. Em entrevista ao Jornal Extra, o professor Rafael Pina, que participou do grupo de corretores das redações em 2009, informou que não há coerência entre as notas, já que não é feita uma reunião entre os corretores para a unificação dos métodos. “O pagamento por número de redações [cerca de 73 centavos] estimula a leitura rápida, descompromissada. É preciso ser muito engajado socialmente para não fazer correções superficiais”, afirmou.
Através do site Enem Urgente, alunos e ex-alunos do Ensino Médio questionam a escala adotada para a avaliação das redações. Com base em uma pesquisa realizada pelo diretor-presidente da Tales Consultoria Educacional, Leonardo Cordeiro, a redação é questionada porque possui uma escala que vai de 0 a 1000, o que faz com que ela seja supervalorizada em relação às outras quatro provas que constituem o exame, avaliadas com escalas diferentes.O INEP afirma que a redação é corrigida por dois professores e que, caso haja uma diferença maior de 300 pontos entre as duas correções, um terceiro professor é escalado. Para os alunos do Enem Urgente, entretanto, 300 pontos é uma diferença muito grande e pode fazer a diferença entre a classificação e a reprovação.
O Jornal O Estado de São Paulo obteve acesso a um documento que confirma a revisão de 129 redações da última edição do exame, dado que contraria informações do MEC, segundo o qual apenas duas notas teriam sido alteradas. O primeiro recurso de revisão divulgado foi o de Michael Cerqueira de Oliveira, 17, que teve sua nota alterada de “anulada” para 880 pontos há algumas semanas. Na semana passada, mais um estudante, do estado de Belo Horizonte, teve sua nota corrigida.
Segundo o MEC, a avaliação e a capacitação dos corretores da redação são de responsabilidade do consórcio contratado para a realização da prova, que cabe ao Cesp e ao Cesgranrio. Ambos afirmam, porém, que não estão autorizados pelo MEC a comentar o assunto.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
O que não foi falado
Já fazem quase três meses que viajei pra Buenos Aires e não consegui escrever sobre nada além da desastrosa viagem de ida para lá. A viagem de volta também poderia render um texto. Para fechar o ciclo, ela foi quase tão horrível quanto a ida, já que a minha mala foi extraviada. Eu, aventureira de primeira viagem, cheguei a passar mal por causa do desgosto.
Já agora as imagens que permanecem na minha mente são a Av. 9 de Julho, que eu sempre associo a Sampa de Caetano, o Obelisco, o caminho obscuro que percorremos até chegar no Caminito e os inúmeros cafés. No centro, havia um café em cada esquina. Meu sonho era chegar lá de manhã e ficar até a noite, ouvindo as histórias das pessoas entre uma media-luna e uma pasta a carbonara.
Fiz todos os passeios de turista, mas fiz os de não-turista também. Caminhamos muito pela cidade. A cada dia, rumávamos em direção a um bairro diferente. Retiro, Recoleta e até La Boca. Esse último foi o mais longo e mais emocionante. Fomos pelo lado cinza do bairro, um contraste muito grande com aquele colorido todo pra inglês ver do Caminito. Foi lá que vimos o lado verdadeiramente sul-americano de Buenos Aires. Esgoto na rua, casas mal cuidadas, população esquecida. Tudo isso me fez perguntar a mim mesma o que os moradores achavam do Caminito e para onde ia o dinheiro arrecadado ali. Hoje, me arrependo de não ter perguntado a eles.
Eu poderia falar muito ainda sobre caminho de volta do Caminito. Um rápido resumo: queríamos ir a pé pelo mesmo caminho, mas um guarda nos disse que era muito perigoso! O que fizemos então foi procurar moedas para pegar um ônibus, porque os ônibus de lá só aceitam moedas, mas procurar moedas em Buenos Aires é como procurar uma agulha num palheiro. No fim, deu tudo certo, graças ao povo local, que foi compreensivo e nos ajudou.
Em um outro dia, fomos para as cidades vizinhas de Tigre e San Isidro, via Tren de la Costa. Só que para pegar esse trem turístico, tivemos que pegar o trem da verdade, na periferia, e o que vimos foi novamente um descaso com a população. População essa que era bem diferente da vista no centro da cidade. Ali se via claramente a descendência andina ao invés da européia. Esses trens eram velhos, caindo aos pedaços e não me admirou nada que tenha ocorrido aquele horrível acidente meses depois.
Mas as lembranças que trago de lá são muito boas. O cheiro de media-lunas pela manhã, as empanadas do restaurante da frente do hostel, a 9 de Julho, a arquitetura hipnotizante da Recoleta e a réplica verdadeira do Pensador, uma jóia que não consta nos pacotes turísticos, mas deveria. Preciso voltar, para conversar com o pessoal de La Boca e para ouvir as histórias das pessoas, entre uma media-luna e uma pasta a carbonara.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Relato de Viagem - O Puyehue e o Buquebus
Foto tirada por Camila.
Eram 7 horas da manhã quando chegamos em Buenos Aires. Eu, Camila e Thuany. A linda visão do nascer do sol no rio da Prata era um conforto, uma recompensa pela madrugada de pesadelos que tivemos. Tudo começou às 18 horas do dia anterior, quando nosso voo fez conexão em Montevidéu (para mim, que odeio viajar de avião, começou já em Porto Alegre). Estávamos sentadas dentro do avião, prontas para a decolagem. Eu, na porta de emergência, aterrorizada. Um uruguaio (ou argentino?) tentava puxar assunto. Eu nem respondia, tentava não pensar em nada, já morrendo de medo antes mesmo de o avião deixar o solo. Mas o avião nem chegou a decolar. O piloto nos avisou que o voo havia sido cancelado por causa das cinzas do vulcão chileno Puyehue. A primeira coisa que senti foi alívio. Mas, depois, o que fazer? Como três brasileiras no início da segunda década de suas vidas, uma mais perdida que a outra, se virariam diante de um imprevisto daqueles, de noite?
Agimos por instinto: seguimos nossos iguais, os brasileiros. Durante toda a noite, pedíamos uma informação aqui, outra ali. Minhas tentativas de falar espanhol com os funcionários do aeroporto foram patéticas. Minhas gesticulações, inúteis. Uma passageira insistia na ideia de irmos de barco até Buenos Aires. Deve ser uma medrosa como eu, pensei, mas torci muito por essa possibilidade. Às 21 horas, nos avisaram que iríamos mesmo de barco para Buenos Aires. Como era esse barco, eu não sabia, mas estava feliz. Qualquer coisa, menos avião.
O tempo passou surpreendentemente rápido. À meia-noite, chegaram os ônibus que nos levariam à cidade de Colonia, onde pegaríamos o barco (Buquebus, era como o chamavam). Foi uma verdadeira selva. Passageiros dos mais de cinco voos cancelados devido ao vulcão corriam para garantir seu lugar no ônibus. Thuany, na ânsia de pegar um lugar confortável, colocou e retirou por três vezes sua mala de três ônibus diferentes. Acabou se separando de Camila e de mim. Foram mais de duas horas de viagem até Colonia. Todos no meu ônibus pareciam dormir, mas eu fiquei imaginando como seria a paisagem do interior argentino. Não devia ser muito diferente do pampa gaúcho. Pena que não era possível ver nada lá fora.
Assim que chegamos, mais estresse. Formaram-se três filas gigantescas que não andavam. Ninguém sabia o que fazer. Nenhum funcionário da companhia aérea Pluna tinha nos acompanhado até lá. Ainda no aeroporto, haviam nos dado uma passagem para o buquebus e, assim, se livrado do problema. Camila e eu achamos a Thuany e fizemos como todo mundo: esperamos. Lá pelas quatro da manhã, alguém do buquebus surgiu com uma lista mágica que continha todos os nomes dos passageiros, o que nos garantia o embarque.
Será que finalmente embarcaríamos para Buenos Aires, depois de quatro meses planejando a viagem e horas andando de um lado para o outro? Não. Camila e eu perdemos o papel de entrada e saída no país graças a um mal entendido da funcionária da Pluna. Sem ele, não poderíamos deixar o Uruguai. Tentamos explicar nossa situação, mas a mulher responsável pela migração parecia rir da nossa cara, seus subalternos ao lado permaneciam impassíveis. Havia só uma solução: pagar uma multa de 700 pesos uruguaios (cerca de 70 reais) cada uma. Exaustas e com medo de perder o barco, entregamos o dinheiro a ela, odiando mais do que tudo na vida aquele sorriso debochado. Antes de entrar no buquebus, um último momento de desespero: percorremos corredores e mais corredores, não chegando ao tal barco nunca. Aquilo mais parecia um cenário de filme de terror, totalmente abandonado. Por fim, chegamos, e o barco ainda estava esperando por nós. Finalmente, estávamos indo em direção a Buenos Aires.
Foto tirada por mim, enfim no buquebus.
*Esse foi o memorável primeiro dia. Ao longo da semana, vou postando o desenrolar da história.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Melancolia
Minhas impressões, antes que eu perca o fio da meada e acabe deixando pra lá (pode ter spoilers):
Nunca tinha visto um filme do Lars Von Trier, mas li no blog do Merten sobre os seus personagens que não se encaixavam muito bem na sociedade. Gostei muito da Kirsten Dunst, ela parece ter sido a atriz perfeita para o papel. Achei a cena de abertura, com a câmera lenta e a música clássica, meio Kubrick, mas eu acho tudo meio Kubrick de todo modo. Os simbolismos para mim estão muito claros, mas tem um que ainda não li em nenhum lugar: trata-se da oposição entre melancolia e luto.
Não sou psicóloga, mas isso foi algo que eu vi há alguns dias no Café Filosófico da TV Cultura. Sendo muito simplista, a melancolia é um estado em que não se aceita uma perda, enquanto, no luto, já há essa aceitação. Apesar da personagem Justine apresentar características melancólicas na primeira parte do filme (visto que ela encontra dificuldade em seguir em frente com a sua vida - fato que aparece simbolicamente quando seu cavalo não consegue atravessar uma ponte), na segunda parte, Justine já superou esse estado e finalmente entrou para a fase do luto. Ela está conformada com o fim, até mesmo a obviedade de seu figurino (uma camiseta preta) mostra isso. Paralelamente, sua irmã Claire, que possuía uma vida convencional e perfeitamente formada, passa a ser a personificação da melancolia. Ela não consegue aceitar o fim nem mesmo quando este chega de vez, contaminando o espectador com seu desespero.
Há muitas outras coisas interessantes para serem pensadas sobre o filme (o planeta Melancolia, a criança, a atitude do pai), mas essa relação da melancolia e do luto entre as duas irmãs foi o que me chamou mais atenção.
Fora, é claro, a cena final, que, mesmo com o uso de recursos óbvios (como a trilha sonora que aumenta de intensidade), é marcante, angustiante e dá todo o sentido ao título do filme. É daquelas cenas que valem muito a pena serem vistas no cinema.
(Luto e Melancolia é também um texto de Freud de 1917, que estabeleceu os conceitos utilizados hoje. Trecho aqui.)
(Luto e Melancolia é também um texto de Freud de 1917, que estabeleceu os conceitos utilizados hoje. Trecho aqui.)
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Crescimento
Se tem uma palavra que pode definir o fenômeno Harry Potter, essa palavra é crescimento. Em primeiro lugar, porque nós, os fãs (não tenho como fazer um texto com olhar distanciado), crescemos junto com as personagens. Ao longo da década, vimos Harry enfrentando seus medos, descobrindo amores e tendo que lidar com perdas difíceis. Aprendemos junto com ele valores que, embora possam parecer psicologicamente rasos nos livros de JK Rowling, fazem parte de nossa formação. Não há como negar isso quando se fala de Harry Potter. Muito do que somos hoje veio diretamente das personagens.
Tenho a impressão de que isso aconteceu também com os atores principais dos filmes de Harry Potter: Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson. Não deve ser nada fácil viver a infância tendo que, todos os dias, assumir o papel de outra pessoa. Hoje, quando vejo entrevistas dos atores e comparo com suas atuações, vejo muitas semelhanças no jeito de ser da atriz Emma Watson e da personagem Hermione Granger, por exemplo. As personagens também fizeram parte do crescimento deles, e acredito que tenha sido praticamente impossível eles conseguirem separar (por 10 anos!) seu "eu-real" de seu "eu-mágico".
Mas não é só por isso que Harry Potter significa crescimento. É interessante notar também o amadurecimento dos filmes. Se Chris Columbus, o diretor dos dois primeiros (em um total de oito), introduziu o mundo de Harry Potter de forma infantil e pouco criativa, David Yates chegou ao fim impondo seu estilo e finalmente conseguindo transportar as páginas do livros para as telas de cinema com uma certa maturidade cinematográfica. Yates se permitiu, por exemplo, realizar planos longos, em que o silêncio revela mais do que qualquer diálogo, coisa que seria impossível 10 anos antes, quando era exigido da série um ritmo hollywoodiano.
Para isso, Yates contou com a ajuda de ótimas atuações, inclusive de veteranos do cinema britânico. No último filme, Relíquias da Morte, Alan Rickman é, sem dúvidas, o que mais se destacou, representando a personagem mais complexa de toda a série. Ralph Fiennes finalmente conseguiu transmitir um pouco da intensidade do vilão Voldemort tal qual o vimos nas páginas dos livros. Os atores jovens também atingiram seu ápice no final. A partir da direção de Yates, o trio principal (principalmente Emma Watson e Daniel Radcliffe, que não vinham fazendo boas atuações) evoluiu muito. Emma deixou o exagero e soube expressar toda a carga emocional exigida pela personagem com veracidade. Rupert, que já apresentava boas atuações, pôde mostrar aspectos de Rony Weasley que ele ainda não tinha conseguido mostrar por causa do roteiro. Mas foi Daniel quem mais amadureceu. Nunca antes tínhamos visto um mesmo ator por 10 anos representando a mesma personagem, ainda mais em plena fase de crescimento. Se, em Relíquias da Morte, Harry finalmente se tornou um adulto ao ter que carregar um enorme peso nas costas, o mesmo parece ter acontecido a Daniel.
E, embora o final deixe boas impressões, é difícil aceitar essa perda, não apenas porque o fim de Harry Potter significa o fim da infância, mas também porque somos deixados em um momento em que, dentro e fora das salas de cinema, há ainda muito mais o que explorar.
domingo, 26 de junho de 2011
3%
A ficção científica não é um ponto forte da teledramaturgia brasileira. Recentemente, o gênero foi explorado por novelas da rede Globo como Tempos Modernos (que contava com um pastiche do robô HAL 9000) e Morde & Assopra. A rede Record também apostou no gênero, com os péssimos efeitos especiais de Os Mutantes. Os resultados, porém, foram risíveis. Acontece que uma boa ficção científica não se faz apenas com efeitos especiais. As melhores produções de ficção científica são aquelas que privilegiam uma boa história a ser contada, às vezes até mesmo com quase nenhum efeito especial.
Esse é o caso de 3%, projeto de jovens cineastas cujo piloto já pode ser visto no Youtube. Segundo os próprios criadores, "a série acompanha a luta dos personagens para fazer parte dos 3% dos aprovados que irão para o Lado de Lá. A trama se passa em um mundo no qual todas as pessoas, ao completarem 20 anos, podem se inscrever em um processo seletivo. Apenas 3% dos inscritos são aprovados e serão aceitos em um mundo melhor, cheio de oportunidades e com a promessa de uma vida digna."
Assista ao piloto:
Com inspiração declarada em filmes como THX-1138 e 1984 e em livros como o próprio 1984 e Admirável Mundo Novo, 3% conta como uma produção cuidadosa, boas atuações e um roteiro com muito potencial. O cruel processo seletivo pelo qual os personagens passam funcionam como uma metáfora para a inserção do jovem no Ensino Superior e no mercado de trabalho.
A série vem atraindo atenção do público na internet, mas os diretores só continuarão o trabalho se uma emissora de tv adotar o projeto. O potencial de 3% é inegável, mas será que os autores teriam sua liberdade criativa mantida na tv aberta? Eu, com meus poucos anos de experiência televisiva, não me lembro de ter visto nenhuma distopia (subgênero da FC que retrata cenários pessimistas e governos totalitaristas) sendo exibida por uma emissora brasileira. Mas a série também poderia ser bancada pelas emissoras de tv por assinatura, como a Fox, que provavelmente garantiriam mais liberdade aos criadores.
Mas uma coisa é certa: de uma maneira ou de outra, o show tem que continuar.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Os 4 P's (da música pop?)
Um dos principais objetivos da música pop é vender. Pelo menos ao longo das duas últimas décadas (em que eu acompanhei a música pop e posso falar melhor sobre), inúmeras fórmulas e estratégias foram criadas visando atingir o topo da Billboard, quebrar records e gerar lucro. As cantoras solo americanas, por exemplo, fazem uso principalmente da imagem e da publicidade, deixando o produto, muitas vezes, em segundo plano.
Com o novo álbum da cantora Lady Gaga, Born This Way, lançado na semana passada, novas estratégias de marketing, plenamente adaptadas ao mundo digital, aparecem no horizonte da cultura pop. Acontece que sua gravadora fez um contrato com o site de vendas Amazon, que disponibilizou por um dia o formato digital do álbum de Gaga literalmente a preço de banana: 99 centavos. Estima-se que só nesse site, o álbum tenha vendido 400 mil cópias em uma semana.
A questão é que comprar um cd por 1 real é praticamente a mesma coisa que fazer o download do produto, ainda mais nos Estados Unidos, onde as pessoas tem o hábito de comprar as músicas digitalmente ao invés de baixar (no site de vendas iTunes, uma única música pode vender até mesmo 300 mil cópias por semana). Assim sendo, a equipe de marketing de Gaga bolou um jeito de reverter o quadro da "pirataria" a seu favor, vendendo o produto cerca de 20 vezes mais barato do que o usual (no iTunes, os álbuns são vendidos a cerca de 11 dólares).
Ou seja, boa parte desses "semi-downloads" passou a contar como cópias vendidas oficialmente. E isso é inegavelmente inteligente, porque, embora não gere lucros consideráveis, contribui para a publicidade e fortalece a imagem da cantora, que supostamente irá vender mais de 1 milhão de cópias em apenas uma semana (algo extremamente raro do mercado da música pop atual). Além disso, o cd está sendo vendido em lugares até então inimagináveis, como a loja de cafés Starbucks. Um trabalho de distribuição e pontos-de-venda, atrevo-me a dizer, nunca antes visto na música pop. Somam-se a tudo isso as letras polêmicas, os videoclipes super-produzidos e os figurinos escandalosos da cantora e, voilá, uma verdadeira aula de marketing. Produto, preço, ponto-de-venda, promoção.
Mas o que eu continuo me perguntando é se existem limites nessa relação da música pop com o marketing. Até onde vai uma gravadora ou um artista na eterna busca do sucesso comercial? Acho que essa é a grande questão.
P.S.: considerem esse post como uma tentativa não-sucedida de fazer algo o mais imparcial possível.
P.S.: considerem esse post como uma tentativa não-sucedida de fazer algo o mais imparcial possível.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Dubstep Is the New Black
Gênero da música eletrônica surgido na cena underground de Londres no início dos anos 2000, o dubstep caracteriza-se por texturas claustrofóbicas e melancólicas, "de máximo impacto físico e mental", segundo o site Rraurl.com, especializado em música eletrônica. O dubstep começou a se popularizar através de nomes como o de Rusko e se tornou sucesso na cena eletrônica alternativa (não confundir com raves e boates onde predomina o estilo David Guetta) mundial.
Nunca fui em nenhuma dessas festas underground onde rola o dubstep, mas pelo que se vê nas redes sociais, o gênero é constantemente associado a drogas e sexo. Ainda segundo o Rraul.com, ele é essencialmente anti-pop.
Mas, de uns anos pra cá, o dubstep tem aparecido na cena mainstream, o que, é claro, irritou aqueles que já conheciam o estilo "antes de virar modinha". Esse fluxo da cena underground para o mainstream é, muitas vezes, inevitável, principalmente se o objeto em questão tiver qualidade para chamar a atenção de quem atua na indústria pop.
Esse é o caso do dubstep. Desde 2010, há uma verdadeira febre na música pop, com vários remixes aparecendo nas redes sociais da vida. Até mesmo o tema do filme Harry Potter apareceu remixado ao gênero. Embora ele já venha fazendo discretas aparições desde 2007 em músicas de cantoras pop, como Rihanna e Britney Spears, foi só agora que o dubstep foi de fato incorporado ao pop. Femme Fatale, o novo álbum de Spears, lançado em março, é a maior prova dessa integração. A cantora chegou até mesmo a trabalhar com o próprio Rusko (blame it on him). O gênero foi utilizado não apenas no single de abertura do álbum, Hold It Against Me, como também em outras músicas, como na sexy-melancólica Inside Out:
Como não poderia deixar de ser, tudo isso causou polêmica. "Britney matou o dubstep", disseram alguns. Outros reconheceram que a mistura não é das piores, a popularização já vinha acontecendo e em breve entraria de vez na indústria pop. O problema é que, em algumas faixas do álbum, Britney quebra as características de melancolia e claustrofobia do dubstep, misturando o estilo com batidas alegres e melodias grudentas. Essas distorções, porém, sempre acabam acontecendo quando um estilo é popularizado, e seria quase um milagre se o dubstep permanecesse exatamente como foi criado. Apesar disso, em tempos de pós-modernidade, é aceitável que essa hibridização ocorra, criando ainda mais novos estilos. Tudo o que é bom merece reconhecimento, e, se a indústria pop escolheu o dubstep, todos só tem a ganhar com isso.
Um exemplo puramente dubstep: http://youtu.be/OrsDfQ-qmjs
Quer saber mais sobre música eletrônica? O site http://techno.org/electronic-music-guide/ é um ótimo guia (em inglês) que explica direitinho todos os gêneros e subgêneros, com exemplos pra ouvir.
sábado, 23 de abril de 2011
Rapidinhas sobre os últimos filmes vistos
Testemunha de Acusação (Billy Wilder, 1957): Ah,Wilder... sempre com seus roteiros surpreendentes, com sua direção precisa e uma trama cheia de suspense e reviravoltas. Tipo de filme que você acha que já sabe o final, mas descobre que estava muito enganado. Atuações excelentes de Charles Laughton, Tyrone Power e Marlene Dietrich.
Pickpocket (Robert Bresson, 1959): Inspirado em Crime e Castigo, de Dostoiévski, mas nem por isso deixa de ser um filme autoral. Bresson segue o mote de Crime e Castigo, mas faz questão de explicitar suas diferenças ideológicas, como no tema religião. O filme é drama, mas eu o classificaria como documentário sem hesitar, por seu um retrato angustiante e realista de um batedor de carteiras.
Netto Perde Sua Alma (Beto Souza e Tabajara Ruas, 2001): Filme da "escola gaúcha", conta a história do general Antônio de Souza Netto, que lutou na Revolução Farroupilha e na Guerra do Paraguai. Apesar de romantizar o personagem-título, o filme procura mostrar os horrores da guerra e retrata a injustiça cometida aos negros (que receberam a promessa da liberdade, não cumprida). Destaque para a fotografia e para algumas cenas teatrais, como a do desfecho do filme.
Quanto Vale ou é por Quilo? (Sergio Bianchi, 2005): Documentário que utiliza o humor ácido para criticar a hipocrisia presente no terceiro setor. Faz pensar sobre as questões sociais do país, tratadas apenas na superfície. Se Bianchi tinha como objetivo constranger os espectadores, tenho certeza que conseguiu. Ótima analogia com a escravidão.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
Cordel Encantado
Cordel Encatado estreou na semana passada (Rede Globo, 18:30h) e deu uma mexida nas estruturas da teledramaturgia atual, tanto em termos de linguagem quanto em se tratando de conteúdo. De forma despretensiosa e leve, o enredo fala de dois universos distintos: o sertão nordestino do início do século XX e o reino fictício de Seráfia, com seus príncipes e castelos.
A novela é baseada na literatura de cordel, um tipo de poesia que foi "importada" de Portugal e se tornou popular no nordeste brasileiro. Justamente por isso, as autoras Thelma Guedes e Duca Rachid tem mais liberdade poética para inserir elementos criativos em meio ao contexto histórico. Um exemplo são as interferências modernas no figurino de época (a la Maria Antonieta). Um dos personagens usa óculos azul, por exemplo. O mesmo vale para a direção de arte (meu elemento preferido é o coreto da praça de Brogodó). Todos os elementos técnicos são cuidadosamente pensados. O roteiro também se destaca, como uma espécie de conto de fadas de caráter híbrido, onde várias culturas são mencionadas, até mesmo a árabe.
Outra novidade é que a novela é gravada em película, algo já tentado antes na Globo, mas que teve de ser abandonado no meio. Cordel Encantado utiliza planos abertos e enquadramentos bem interessantes, levando-se em conta as demais novelas do cenário televisivo atual. O núcleo do reino de Seráfia (gravado na França) tem uma fotografia em tons claros e prateados, enquanto o do sertão nordestino é retratado quase sempre em cores quentes, que puxam para o amarelo e para o laranja.
As atuações não chegam a ser espetaculares, mas são muito boas em geral. Destaco Marcos Caruso e Zezé Polessa, no papel de prefeito e primeira-dama de Brogodó. Os dois fazem a dupla mais engraçada do folhetim, compensando, por exemplo, a atuação forçada e sem graça de Luiz Fernando Guimarães.
Se Cordel Encantado manter a qualidade do roteiro, sem cair em clichês televisivos e estereótipos, e se conseguir manter a linguagem diferenciada até o fim, tem tudo para se tornar uma das melhores novelas que já passaram pelo horário das 18 horas.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Quanto Mais Sangue Melhor II
O Jornal Nacional apresentou, na edição dessa segunda-feira, 11 de abril de 2011, uma reportagem preconceituosa a respeito dos manuscritos achados na casa de Wellington Menezes, responsável pela morte de 12 crianças na semana passada. Os manuscritos fazem referência à religião islâmica e a atentados terroristas, entre outras coisas.
Assista à reportagem aqui: http://migre.me/4e7Lp
Não é mentira que Wellington tenha citado tanto o islamismo quanto o terrorismo nesses manuscritos, embora tudo indica que ele não estava em perfeita condição de sanidade mental quando o fez. O problema é que essas duas palavras foram usadas quase que como sinônimos pelo repórter Eduardo Tchao, de forma superficial e irresponsável. A reportagem nem ao menos comenta o provável estado de confusão religiosa do assassino, fato que já tinha sido afirmado por especialistas ao canal Globo News.
A reportagem cita ainda o trecho em que Wellington Menezes faz referência ao bullying que sofreu na infância, sem, entretanto, denominá-lo assim. A ligação que está sendo feita pela imprensa, entre o bullying e o massacre da semana passada, foi tida como preconceituosa por pelo menos três especialistas consultados pela Globo News nos últimos dias. Nenhum especialista foi consultado pela Globo sobre esse assunto.
Quanto às questões que o assunto levantaria, pouco ou quase nada foi discutido na tv aberta. Falta de tempo ou de interesse? No agendamento de pautas do horário nobre, é mais lucrativo alertar para um "suposto" terrorista no Brasil do que discutir questões como o contrabando de armas e as doenças psicóticas, só para dizer algumas.
Aliás, segundo o responsável pelo inquérito, em entrevista (novamente) à Globo News, é pouco provável que a ligação entre Wellington Menezes e o terrorismo tenham algo a ver com o massacre. A Globo omitiu a verdade, preferindo, mais uma vez, o espetáculo.
Leia também: Quanto Mais Sangue Melhor I: http://agavetadepandora.blogspot.com/2011/04/quanto-mais-sangue-melhor.html
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